quarta-feira, 13 de maio de 2009

Aquela nossa música

De longe, pude vê-lo encostado em uma árvore à beira-mar.

O céu, sem nuvens, tinha como cor um azul particular. Mistura de anis com anil. O mar parecia dançar ao som de Marcelo Camelo. Calmo e poético, com poucas ondas. Sua cor azul marinho se confundia um pouco com o céu e contrastava bem com a areia fina e branca. O vento não era forte, mas, naquele dia, tornou o verão uma estação agradável. Mesmo de onde eu estava, pude ver a satisfação em seu rosto. Via o que eu estava vendo. Sentia o que eu estava sentido. Uma cena de cinema que só nós estávamos assistindo.

Sorriu.

Enquanto me aproximava, percebi que estava com fone de ouvido. Eu tinha certeza que estava escutando a nossa música. Sorriu daquele jeitinho só dele quando ouve a parte que canto todos os dias de manhã. E é incrível como nunca enjoa. Garanto que ele até reclamaria se algum dia não ouvisse, mesmo que do banheiro, o meu cantar desafinado. Da mesma música. Da mesma forma. Eu, a cada dia, enjôo mais de mim. Ele, a cada dia, me ama mais.

Parei e o fotografei. Mesmo sabendo que veria muitas cenas bonitas dele ainda, acreditei que precisava ter aquela registrada. Talvez pra que ele possa ver, em forma de fotografia, o quanto eu o amo. Já que ele mesmo diz que meu forte não é falar, nem demonstrar. Fala que eu penso só em mim e que tenho medo de demonstrar meus sentimentos porque já sofri um tanto. Enfatiza que nós vamos ser nós pra sempre e que não é pra eu me preocupar. Eu sei bem que ele não se importa de verdade com isso: diz que o que vale é estar ao meu lado. Soube desde o começo que é assim que eu sou. Diz que fala pro meu bem e que uma hora vou precisar liberar certas coisas daqui de dentro. Eu choro, ele diz que me ama. Eu choro mais.

Olhou para os lados e sentou. Largou a mochila surrada na areia e de lá tirou um livro. O livro que já leu várias vezes, mas que ainda o impressiona. Nos momentos em que menos espero, ele, de longe, pede atenção e lê um parágrafo. Em seguida, sem esperar que eu vá dizer alguma coisa, solta um frase – nunca a mesma – do tipo “nossa, esse cara é foda” ou “meu, eu quero ser ele quando crescer”. Acho maravilhoso esse jeito dele de “always seriously joking”, como diz aquela música que toca naquele filme.

Estava a menos de dois metros dele quando, sem deixar de olhar pro livro, tirou os fones e disse:

- Eu te senti. Há quanto tempo tu tá me observando, hein, amorinho?

E, com aquele sorriso só dele estampado no rosto, olhou pra mim como se eu fosse a única pessoa no mundo inteiro.

Levantou e me abraçou como se não me visse há anos. De leve, senti um dos fones no meu ouvido. E, no outro, sussurrou:

- Escuta só, tá no repeat.

“E até quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei”.

- Tava com saudade, pequena.


Acordei, acendi um cigarro e fui preparar o café.

A noite ontem foi longa e o dia já parece que nunca vai acabar.

Ainda não tirei as fotografias da parede. Ainda leio o mesmo livro debaixo da mesma árvore ouvindo, no repeat, a mesma música.

Há três anos e a mesma rotina de vê-lo na fila do pão sabendo que ele a encontrou.

5 comentários:

Labes disse...

Rá! Baita texto com final surpreendente. Tão surpreendente quanto o texto em si, se é que tu me entende. Vamos lá, vamos adiante.

Beso.

Iaiá disse...

Fiquei com vontade de chorar. Senti saudades de algo nem sei o quê. Quis abraçar. Quis correr. Mas fiquei quietinha. Coloquei a música Saudades (instrumental) e esperei esse sentimento passar.

Lelena disse...

Não queria ser a mãe que escreve... Hei gente esta é a minha filha!!!
Mas, ao mesmo tempo não conseguirei não esboçar meu comentário aqui neste espaço.
Sobre este novo trabalho da Louise é o brilho da vagalume saindo para seu novo voo. Ela é luz e capta luz em todos os seus trabalhos.
O texto sou uma das privilegiadas de tê-lo visto no esboço.
Iaiá tirou minhas palavras e reação na minha apresentação a leitura pela primeira vez.
Chorei pela Estória, Chorei pela Intensidade e chorei pelo Orgulho da Pessoa Maravilhosa que se fez além e apesar de mim...
O texto é maravilhoso e algo de fundo de coração, daqueles que quando a gente lê fica grudada nele e ele gruda na gente.
Citando parte de um texto de Rubem Alves: " O medo é parte da própria alma. O que é decisivo é se o medo nos faz rastejar ou se ele nos faz voar. Quem, por causa do medo, se encolhe e rasteja, vive a morte na própria vida. Quem, a despeito do medo, toma o risco e voa, triunfa sobre a morte. Morrerá, quando a morte vier. Mas só quando ela vier".
Louise alçou seu voo! Aqui e agora... Voe Louise! Sua fã Marilena

Fábio Ricardo disse...

texto bonito, bem escrito. bóra botar as manguinhas de fora ;)

Tati Plens disse...

"Eu, a cada dia, enjôo mais de mim. Ele, a cada dia, me ama mais."

essa e algumas outras partes que não vou copiar me tocaram em especial.

os textos são lindos e muito sensíveis...