sexta-feira, 15 de maio de 2009

Sobre um dia

Criou uma coragem que não lhe cabia e perguntou se precisava de ajuda.

- Não, estou bem assim.

Não insistiu e voltou pro seu canto no ponto de ônibus. O dia era mais um daqueles de congelar os ossos. A chuva era a mais forte dos últimos tempos. Mesmo assim, ela preferiu ficar lá. Mesmo assim, ela preferiu ficar lá, completamente molhada e tremendo de frio.

Ao entrar no ônibus, percebeu que não veio junto, como todos os dias. Olhou pela janela e a viu chorando. Apesar da cena que presenciou naqueles instantes, pôde ver o quanto era uma menina linda, tinha uma beleza que, provavelmente, não era vista por muitos. Chegou a pensar que, de todas as garotas que já se interessou, ela era, de longe, a mais linda.

Chegou no estúdio, largou a mochila no canto de sempre e foi ao banheiro.

- Bom dia, Clarice.

- Bom dia! Tudo bem com você, querido?

- Mhmm.

Incrível como os papos no começo do dia são automáticos. Pensou que, não, não estava tudo bem. Mas pra que ele iria dizer um não e gerar todo um questionário que, naquele momento, não estava preparado pra responder?

Enquanto esperava o computador ligar, não conseguia tirá-la do pensamento. O que será que aconteceu? Como vou começar o papo amanhã? Tomara que não esteja chovendo. O post-it alaranjado fluorescente colado no canto esquerdo da tela indicava por onde começaria o trabalho. Leu em voz alta como que se obrigando a fazê-lo. Chegou a abrir a página pra escrever o tal do e-mail pro produtor. Mas não conseguia tirá-la do pensamento. Será que ela vai falar comigo? Será que ela vai sorrir? Será que... Tomara que não esteja chovendo!

- Cara, preciso do trailer do filme pronto na quinta-feira. Fica ligado! Tô saindo agora pra uma reunião com o produtor, então, esquece o e-mail. Valeu?

- Mhmm.

Ele era mais uma daquelas pessoas que se dá melhor com as imagens do que com as palavras. Ficou aliviado. Até aquele momento ainda não tinha entendido porque pediam para ele escrever os e-mails. Sempre os escrevia com muita frieza, com somente o necessário e nunca se prolongou: curto e grosso, mesmo sendo um menino sensível. O trailer já estava pronto há dias.

Chegou mais cedo no ponto. Não tinha dormido na noite anterior. Era o nervosismo e a ansiedade que andavam com ele, lado a lado. Será que eu vou conseguir? Ainda bem que não tá chovendo. Lá estava ela, colorida. Sua calça jeans surrada, seu tênis sujo, seu casaco de lã vermelho, seu cachecol listrado. Hesitou, mas falou.

- Oi.

Nada. Será que ela ouviu?

- Oi, moça. Tá melhor hoje?

- Como assim?

- Ah. Não sei. Tu não parecia bem ontem. Mas... não sei.

- É. Então não pergunta. Valeu?

- Mhmm.

Canto do ponto de ônibus. Dor no peito. Frio na barriga. Dor no peito. Cadê o chão? Dor no peito. Puta merda, guria, qual teu problema?! Voltou pra casa, ligou pro trabalho dizendo que estava com febre, achava que era gripe. Mas não: era coração partido mesmo.

3 comentários:

Labes disse...

Repetições boas, texto bom, fluido. E uma porrada no lado da cara no final. Baita!

Fábio Ricardo disse...

Platonicidades da vida ;)
uma merda, eu diria.

não o texto, deixando bem claro.

Tati Plens disse...

puxa vida, que texto...